A profecia que Stephen Hawking fez no ano passado aos poucos vem se concretizando. O cientista disse que a inteligência artificial vai dominar a Terra no futuro, e, pelo menos, no poker isso já está acontecendo. Pela segunda vez em poucos meses, o computador conseguiu derrotar jogadores profissionais. Em um esporte em que o raciocínio e a inteligência são os principais fatores, como que a máquina nos derrotou?

A primeira vitória veio em dezembro, quando o DeepStack, programa desenvolvido por cientistas da Universidade de Alberta (Canadá), conseguiu derrotar 33 jogadores profissionais de poker durante uma maratona de quatro semanas que envolveu jogadores de 17 países.

Depois, poucas semanas mais tarde, a inteligência artificial chamada de Libratus foi capaz de derrotar quatro jogadores profissionais de poker (Jason Les, Dong Kyu Kim, Daniel McAulay e Jimmy Chou) após uma sequência de 120 mil mãos. Quantidade suficiente para provar a superioridade da máquina.

Nos dois desafios, as inteligências venceram com folga considerável e não deram a menor chance para os humanos.

Para conseguir levar a vantagem sobre os humanos, as máquinas usaram a capacidade de prever as jogadas e também blefar. Tais características são importantes em um jogo dominado pelas estratégias, e o DeepStack e a Libratus conseguiram sobrepor os cálculos dos humanos para vencer.

Os cálculos são feitos de maneira diferente entre as duas inteligências. A Libratus requer um sistema muito poderoso para produzir, pois utiliza milhares de estatísticas e possibilidades de jogo. Já o DeepStack pode ser executado em um laptop, como afirma Michael Bowling, coordenador do projeto.

Outro ponto chave para essas vitórias da inteligência artificial está na maneira de encontrar as melhores possibilidades a cada jogada. Enquanto os humanos realizam as jogadas através de raciocínio e treino, a máquina vai pelo lado matemático. É como se cada rodada fosse analisada de maneira extremamente minuciosa pelo computador.

“Instruímos o sistema a aprender a avaliar as situações. Cada situação é uma micropartida de pôquer. Em vez de resolver a partida inteira, o programa resolve milhões de micropartidas, cada uma das quais o ajuda a redefinir sua intuição de como o pôquer funciona”

afirma Bowling.

Já a Libratus enfatiza uma maneira um pouco diferente de trabalhar, mas também eficaz. Um dos focos da máquina é conseguir vencer de acordo com o erro dos humanos. Para isso, ela calcula os movimentos do adversário, e tenta explorar a melhor situação. “Não seria possível vencer sem blefar”, diz Frank Pfenning, da universidade de Carnegie Mellon e um dos criadores da Libratus.

Os dois sistemas ainda não se enfrentaram em uma mesa virtual de poker para descobrir quem é o melhor. E, segundo os criadores dos sistemas, isso não deve acontecer tão cedo, pois ambos estão designados para tarefas mais relevantes de cunho social, como aplicativos de segurança e transferências online.

Apesar da competência provada dessas duas inteligências artificiais, ainda há espaço para melhorias. Segundo Bowling, o sistema ainda precisa ser mais preciso em algumas situações específicas de jogo. Já para Tuomas Sandholm, um dos criadores da Libratus, também é preciso aprimorar os algoritmos dessa IA.

De jeito parecido, mas com detalhes diferentes, o fato é que ambas conseguiram um importante passo no ramo da inteligência artificial, que mostra como as máquinas já estão levando a melhor sobre o cérebro de profissionais que dedicam suas vidas ao esporte.